Capítulo 2. Por que e para quem escrever.
O grande erro é achar que o dinheiro, a política, o talento e tantas outras coisas são os principais elementos transformadores da realidade.
O principal elemento capaz de realizar mudanças em nossa volta chama-se: palavra.
Foi através do poder da palavra que impérios foram a pique e que impérios surgiram do nada. Impérios em sentido amplo. Impérios de qualquer coisa que se imagine.
Não é a toa que "no início foi o verbo". Sem dúvida, foi através do verbo que tudo foi construído - ou destruído.
Portanto, o principal motivo que nos leva a usar a palavra escrita, a escrever, é modificar a realidade a nossa volta. É fazer nascer, transformar ou aperfeiçoar tudo aquilo em que acreditamos, e banir para o esquecimento o que julgamos não ter importância.
E aqui é preciso fazer uma ressalva.
Assim como a imaginação, a palavra - escrita ou falada - tem uma conotação mágica e, ambas, imaginação e palavras, são farinhas do mesmo saco.
Quando se deseja imprimir força a uma narrativa, palavras e imaginação devem estar presentes como as duas faces indissociáveis de uma mesma moeda.
Mais a frente falaremos sobre a domesticação de palavras e os três pilares da imaginação para escrever.
Agora que já sabemos porquê escrever, é preciso estar atento e descobrir para quem escrever.
A literatura diz muito sobre a realidade que nos cerca.
Muitos traços dos personagens criados pelos escritores são inspirados no povo.
Curiosamente, noventa e nove por cento dos personagens dos nossos grandes escritores não passam de escroques safados.
É só conferir o Brás Cubas de Machado de Assis, o advogado Paulo Mendes de Rubem Fonseca, o João Romão de Aluísio de Azevedo, o Ed Mort de Luiz Fernando Veríssimo, o Antônio Balduíno de Jorge Amado, Macunaíma de Mário de Andrade e tantos outros. Com certeza são todos um bando de desclassificados, e é raro encontrarmos gente nota dez entre os personagens dos nossos escritores de ponta.
Ao lado desse dado cultural, também há um outro que é significativo.
Estamos vivendo um momento em que os anti-heróis estão com a corda toda. Nomes como Hellboy, Elektra, Big Head, Rorschach, Etrigan, Arlequina, Deadpool, Venon, Motoqueiro Fantasma estão na crista da onda no cinema, nos quadrinhos e nos jogos.
Junte-se ainda a esses fatos o nefasto desempenho de grande parte dos frequentadores das redes sociais, com seus batalhões de mentiras, fofocas e ofensas disparadas em todas as direções.
Nas ruas mulheres arrancam as calcinhas e defecam e urinam com suas vulvas gordas e cabeludas sobre fotografias de desafetos diante de todos, crucifixos são emporcalhados pelo desrespeito e pela sandice de lunáticos, enquanto a bandeira de um povo crepita nas chamas do fanatismo e da intolerância debaixo das barbas do poder que a hasteou.
Assim, diante do caos e da confusão generalizada que tomou conta do pedaço, fica difícil identificarmos o público alvo que nos interessa. Ou seja, é praticamente impossível identificarmos um conjunto de leitores dotados das características que julgamos ideais para despejarmos nosso papo em cima.
Aqui a lógica do chamado público alvo dos marketeiros de plantão já era, foi pro espaço. Ou melhor: restou invertida, ficou de pernas para o ar.
Explico.
Hoje em dia você não precisa mais escrever para alguém, para um público alvo. Se você escrever legal, você simplesmente escreve e estamos conversados: o público aparece! Como se você fosse um ímã atraindo alfinetes ou algo que o valha.
E há leitores para todos os assuntos. Dos mais sublimes aos mais toscos e darks, a deep web que o diga.
Mas é preciso ter sempre em mente que quanto mais sublime ou sofisticado for o tema abordado, menos audiência se terá.
Dito de outra forma, um dos dramas que a teoria da comunicação tenta resolver é este: como aumentar a audiência sem diminuir a qualidade?
Os clássicos são lidos por poucos enquanto milhões curtem literatura tosca.
Quanto mais você escrever para gente tosca, mais audiência você terá.
Quanto mais você escrever para eruditos, menos audiência você terá.
O problema é que escrever para gente tosca requer uma ginástica própria, além de uma meia dúzia de truques boçais que os prestidigitadores de botequins conhecem bem.
Vamos desossar esse assunto um pouco mais.